Na semana mais volátil da crise até agora, a política fiscal ganhou destaque. Nos EUA, o governo finalmente reconheceu a gravidade da epidemia e lançou suas primeiras medidas de estímulo, o que agradou os mercados. No Brasil, a hesitação do governo em seguir a mesma direção parece ter suas razões. Em um contexto de crescente distanciamento do Congresso, os riscos de perder o controle da agenda fiscal não são baixos, como a derrubada do veto ao BPC já indicou. Na política monetária, continuamos céticos de que a Selic cairá muito, não propriamente pelas projeções de inflação e atividade, mas pelos riscos de mais depreciação no câmbio, intensificado por um cenário de expansão fiscal.
O coronavírus e as medidas fiscais
O coronavírus seguiu avançando no mundo…. A epidemia seguiu crescendo em velocidade geométrica em vários países, com destaque para a Europa e EUA. A boa notícia ficou na Asia, onde o crescimento da doença segue controlado não só na China, mas também na Coréia do Sul e no Japão. O sucesso nestes dois últimos casos é especialmente valioso, pois sugere que a combinação de testes em massa com medidas organizadas de distanciamento social são eficazes para manter o crescimento da doença em ritmo administrável e evitar o colapso do sistema de saúde.
… e as medidas de estímulo começaram a aparecer. A maioria dos países afetados pela epidemia anunciou pacotes econômicos para amenizar os efeitos da crise e prover recursos ao sistema de saúde. Nos EUA, o governo finalmente reconheceu a gravidade da epidemia e lançou suas primeiras medidas de suporte na sexta-feira, o que agradou os mercados.
Certamente outras medidas virão, mas com escopos diferentes. De fato, há um crescente debate entre os economistas sobre como as medidas de estímulo para a atual crise deverão ser distintas das políticas clássicas de estímulo fiscal. Pra ficar no exemplo mais óbvio, qual seria a utilidade de estimular o consumo via cortes de impostos se o objetivo é justamente manter os consumidores em casa? O foco, na verdade, deveria ser em criar mecanismos de proteção para que empresas não quebrem e famílias não passem dificuldades por conta da queda temporária (e inevitável) da atividade. Entre possíveis medidas, podemos citar subsídios do governo para licenças remuneradas , criação de linhas especiais de crédito e adiamento do pagamento de impostos para as empresas dos setores mais afetados.
Professor Ricardo Reis (LSE) sobre políticas fiscais na crise
** Package of fiscal policies for the quarantine times
— Ricardo Reis (@R2Rsquared) March 15, 2020
Follows my earlier thread emphasizing the impact of #covid19 crisis on the productive capacity of the economy. Focusing policy on making the loss of potential output smaller and more transitory.
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Vale notar que quanto mais focadas forem tais medidas, mais simples politicamente será retirá-las quando a situação se normalizar. Afinal, há um risco concreto de que o coronavírus seja usado como desculpa para que governos aumentem permanentemente seus gastos. Quanto mais difusas forem as políticas de estímulo, mas fácil será achar uma razão qualquer para mantê-las. Uni-se a fome com a vontade de comer.
No Brasil, poucas pistas do que vem por aí. Por ora, o governo tem hesitado em anunciar medidas econômicas para a crise. De fato, o discurso ainda tem sido na linha de que as reformas seriam a melhor resposta. Para ser justo esta hesitação tem suas razões. Em primeiro lugar, se ainda não há clareza de como a epidemia irá se comportar no Brasil (clima tropical ajuda?), há menos ideia ainda sobre seu impacto econômico para que medidas focadas sejam anunciadas. Em segundo lugar, na última semana a equipe econômica ficou mais preocupada em desarmar uma bomba fiscal vinda do Congresso do que pensar em coronavírus. A ampliação do BPC pode gerar um impacto de R$12 bilhões por ano segundo estimativas do banco Itaú, (os R$20bi anunciados pelo governo parecem exagerados).
Se o governo não liderar, será liderado. No atual contexto de tensão política não podemos descartar a possibilidade de o governo perder o controle da “pauta do coronavírus” para o Congresso. Nesta hipótese, provavelmente veríamos medidas desencontradas e de eficiência duvidosa sendo aprovadas. Este parece ser o principal risco político/fiscal para os próximos meses.
Perspectivas para os juros
Lá fora, bancos centrais seguiram provendo liquidez. Na Europa, embora o ECB não tenha cortado os juros (já estão negativos em -0.5%) anunciou o aumento do seu programa de compras de ativos além de medidas especificas para suportar o crédito bancário. Nos EUA, entre outras medidas o Fed anunciou na noite de domingo uma redução emergencial das taxas de juros para o intervalo de 0-0.25% além de um programa de compra de U$700 bi em ativos. A medida foi seguida de uma ação coordenada de outros bancos centrais também no sentido de prover liquidez ao sistema.
E no Brasil? O que esperar para a Selic? Com o Fed e outros grandes BC afrouxando suas condições monetárias, seria natural imaginar que o Bacen seguisse o mesmo caminho. De fato, muitos economistas tem defendido cortes rápidos da Selic, algo como 0.75%, ou até mais, na reunião desta quarta-feira. Nesta linha, o Bacen deveria acelerar o ritmo de venda de reservas cambiais para evitar depreciação excessiva do Real. Somos céticos em relação a essa estratégia, e aqui valem algumas considerações. Em primeiro lugar, uma queda forte da Selic pouco ajudaria na recuperação da atividade econômica. Como argumentamos, políticas de expansão fiscal deverão ser implementadas no mundo, e o Brasil não fugirá a regra. Como serão essas políticas e quais seus custos? Qual o risco de o governo perder o controle dessa agenda? Neste contexto, corte de juros poderiam aprofundar a deterioração dos prêmios de risco. Em segundo lugar, não se sabe a extensão e duração da crise, e portanto, até quando o Bacen seguiria vendendo suas reservas para defender certa taxa de câmbio.
Por ora, vemos um corte de 0.25% na Selic esta semana como caminho mais prudente e provável. Não cortar nada também parece uma opção viável, mas menos provável em nossa opinião.
