O IRB foi recentemente incluído na carteira dos fundos da Versa. O IRB Brasil é a principal resseguradora do país. Sua função é, essencialmente, segurar as seguradoras — ou seja, absorver parte dos riscos que as seguradoras assumem em seus contratos com pessoas físicas e empresas. Assim como uma seguradora protege o patrimônio de seus clientes contra eventos inesperados, o IRB protege as seguradoras contra o impacto financeiro de sinistros elevados ou concentrados.
Esse é um negócio altamente técnico e de capital-intensivo. O lucro vem da diferença entre os prêmios ganhos e os sinistros pagos, menos os custos de aquisição e despesas administrativas. Além disso, há uma componente financeira importante: enquanto o dinheiro dos prêmios não é usado para pagar sinistros, ele é investido — e o retorno sobre essa carteira pode representar uma fatia relevante dos lucros.
A resseguradora ideal tem três características: boa diversificação de riscos, sinistralidade controlada e rentabilidade financeira previsível. O IRB, por muito tempo, parecia ter tudo isso até ser descoberta uma fraude.
A queda: entre o lucro de mentira e o prejuízo real
Até 2019, o IRB era uma história de sucesso da bolsa — lucros crescentes com bons dividendos. Mas os números estavam distorcidos. Em 2020, o mercado descobriu uma fraude contábil, os balanços foram republicados, e a diretoria caiu. A ação desabou. A empresa enfrentou anos de prejuízo, aumentos de capital que totalizaram R$3,5bn e mesmo com isso passou perto de não ter capital suficiente para operar.
Devido a má precificação dos riscos subscritos pela resseguradora nos anos anteriores os sinistros aumentaram muito em 2020 até 2022 pois a empresa teve que parar de crescer para ajustar a carteira de resseguros. Junto com isso, os resultados financeiros pioraram bastante devido a títulos comprados com taxas de juros muito baixas.
A retomada: capital estável, sinistralidade sob controle
Desde 2022, com uma nova gestão após algumas trocas de CEO, o IRB iniciou uma recuperação silenciosa, mas efetiva. Em 2024, saiu de contratos ruins no segmento de Vida, enfrentou as enchentes no Rio Grande do Sul, que geraram um impacto superior a R$200 milhões, e ainda assim conseguiu melhorar seus números operacionais. O índice de suficiência de capital subiu para 207% no primeiro trimestre de 2025 — abaixo dos peers europeus, mas confortável segundo a regulação brasileira.
A sinistralidade, que foi o grande problema entre 2020 e 2022, deve se estabilizar ao redor de 64% — um número saudável. Apesar do cenário de juros altos, o IRB ainda não colhe todo o benefício da alta taxa de juros atual. Parte relevante da carteira de ativos está alocada em títulos antigos, de rentabilidade baixa.Essa situação está mudando aos poucos. A empresa vem vendendo gradualmente os ativos “legado” a cada trimestre. Enquanto isso, com a melhora da sinistralidade, redução dos custos de aquisição e uma melhora razoável no resultado financeiro, o lucro deve crescer mais de 50% em 2025.
O IRB hoje tem múltiplos baratos, em torno de 7x P/E 2025 e uma perspectiva positiva de voltar a pagar dividendos até o final do ano. A companhia deve retomar os pagamentos via Juros sobre Capital Próprio (JCP), o que melhora a eficiência tributária dos dividendos já em 2026. Além disso, a empresa possui prejuízos fiscais acumulados durante os anos de reestruturação que também são usados para abater os impostos.
Não projetamos um crescimento relevante nos prêmios emitidos pelo IRB nos próximos trimestres. Diante disso, a empresa deveria focar na distribuição de caixa. Com a carteira atual, o payout pode chegar a 75%, o que implicaria um dividend yield acima de 10% em 2026, assumindo uma taxa de juros em torno de 12% (contra os 14,75% atuais).
Uma queda mais acentuada da Selic afetaria o resultado financeiro do IRB, mas, mesmo no nosso pior cenário, o lucro de 2026 se manteria estável em relação a 2025. Além disso, esse cenário de queda de juros favoreceria o restante da carteira do fundo Versa, que tende a se beneficiar diretamente de um ambiente menos restritivo.
O IRB é uma tese que ainda carrega a memória do desastre — mas os grandes problemas já ficaram para trás. A operação é hoje muito mais estável e capitalizada. E a trajetória de lucros em 2025 e 2026 é crescente com um múltiplo atrativo.
