O fundo Versa Genesis nasceu com a estratégia de investir em ativos de infraestrutura com retornos previsíveis e, preferencialmente, regulados. A ideia é focar em negócios que se comportem de maneira semelhante a títulos de renda fixa, proporcionando estabilidade e um fluxo de caixa previsível.
Nesse contexto, as empresas geradoras de energia elétrica deveriam ser uma escolha natural. Globalmente, são vistas como negócios de receita recorrente e indexada à inflação. No entanto, a realidade no Brasil transformou essa premissa. Hoje, consideramos o investimento em geração um negócio de retorno incerto e, por este motivo, não alocamos capital em empresas cuja principal linha de resultado é geração de energia.
A maior parte das grandes geradoras brasileiras, como Eletrobras, Engie e Auren, opera com contratos de energia de curto prazo, geralmente de até três anos. O caso da Eletrobras é ainda mais emblemático, dado o seu volume significativo de energia “descontratada” — ou seja, sem um comprador definido tanto para o curto quanto para o longo prazo.
Isso transforma um negócio que deveria ser previsível em algo tão arriscado quanto abrir um restaurante. Como o mercado futuro de energia para prazos acima de três anos é pouco líquido, as geradoras são forçadas a se contratar no curto prazo para garantir preços melhores. A consequência direta é que o retorno futuro de seus ativos se torna um mero palpite, totalmente dependente de preços de longo prazo que hoje não existem em contratos fechados.
As Distorções que Pressionam os Preços
Existe o argumento de que a demanda por energia, que acompanha o crescimento econômico, deveria disciplinar os preços no longo prazo, já que novos projetos de geração exigiriam um retorno mínimo para o investidor. A lógica é que um investidor racional não construiria nova capacidade sem a garantia de um preço que remunere seu capital.
Na nossa opinião, esse argumento não se sustenta na prática do setor elétrico brasileiro por um simples motivo: a expansão da oferta de energia não ocorre apenas via mercado livre. Pelo contrário, o sistema é marcado por distorções e subsídios que adicionam capacidade a preços artificialmente baixos, pressionando toda a cadeia. Seria como se, no mercado de restaurantes, um concorrente pudesse vender o mesmo prato que você, mas com os custos subsidiados pelo governo.
Identificamos alguns dos principais focos de distorção:
- Autoprodução com Descontos: Grandes indústrias conseguem obter descontos relevantes na tarifa de transmissão ao deterem uma participação, mesmo que irrisória, em uma usina. Com isso, garantem a energia para sua operação a um custo menor, não tendo que comprar essa energia a mercado e, consequentemente, reduzindo a demanda e os preços de longo prazo para as geradoras.
- Geração Distribuída (GD) Subsidiada: A instalação de painéis solares em residências e comércios conta com subsídios nas tarifas de transmissão. Isso torna o investimento altamente lucrativo para o indivíduo, mesmo que a energia seja gerada em momentos nos quais não há capacidade de escoamento na rede. O resultado é um deslocamento da energia gerada por grandes usinas (hidrelétricas, eólicas e solares) e um custo adicional para todos os outros consumidores.
- Expansão via Leilões e “Jabutis” Legislativos: A demanda futura tende a ser cada vez mais atendida por fontes “fora do mercado”, como leilões específicos para PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) ou a contratação obrigatória de térmicas inflexíveis, muitas vezes inseridas em Medidas Provisórias e leis sem relação direta com o tema. Essas contratações vêm com subsídios que são repassados à conta de luz do consumidor, e que servem para deprimir ainda mais os preços de energia no mercado livre dada a adição extra de capacidade.
O Futuro: Preços Baixos para Geradoras, Custos Altos para o Consumidor
Apesar de uma alta nos preços de energia, PLD (preço de liquidação das diferenças) neste ano — causado por mudanças nos parâmetros de risco —, vemos este cenário como temporário. O próprio modelo, ao comandar um despacho maior de usinas térmicas (mais caras), tende a manter os reservatórios das hidrelétricas mais cheios, o que deverá levar o PLD a patamares mais baixos no futuro próximo.
A realidade é que, enquanto o custo para o consumidor final só deve aumentar para arcar com os subsídios dessa expansão ineficiente, os preços para as geradoras expostas ao mercado livre devem continuar estruturalmente baixos.
Nossa Estratégia: Foco na Distribuição. Diante de um cenário com retorno imprevisível e alto risco regulatório e político, optamos por não ter exposição a empresas puramente de geração. Em vez disso, dedicamos nossa posição no setor de infraestrutura à distribuição de energia, um segmento genuinamente regulado, com concessões de longo prazo e retornos mais previsíveis, através de nossos investimentos em Neoenergia, Energisa e CPFL.
