Avessos à risco ou avessos à perdas?
Na Teoria do Prospecto, Kahneman e Tversky (1979) demonstraram que a maioria das pessoas tem desprazer maior com uma perda financeira do que satisfação com um ganho equivalente. Entre receber R$ 5.000 ou arriscar perdê-los para ganhar R$ 10.000 em um cara-ou-coroa, a maioria fica com R$ 5.000 e evita a possibilidade de perder R$ 5.000 mesmo tendo chance igual de ganhar o dobro. Entre perder R$ 5.000 com certeza ou arriscar perder R$ 10.000 ou zero em um cara-ou-coroa, a maioria fica com o jogo, ou seja, com a possibilidade de não perder nada. Se os seres humanos fossem racionais como a Teoria da Utilidade prevê, seriam indiferentes entre ganhar/perder R$ 5.000 ou jogar o cara-ou-coroa, já que ambos têm o mesmo valor esperado (R$ 10.000 * 50% de probabilidade + R$ 0 * 50% = R$ 5.000). Na vida real a decisão das pessoas é guiada pela frustração com as perdas, que se sobrepõe à felicidade com os ganhos do mesmo valor. Além de avesso a risco, o ser humano é avesso à perdas.
A frequência dos retornos negativos
Chama-se risco de mercado a dispersão de retornos dos investimentos. O risco da renda-fixa, que sobe todo dia um mesmo pouquinho, é ~zero. Já a bolsa tem risco alto, e variável. Nos momentos de calmaria as oscilações são pequenas, e nos momentos de nervosismo são grandes. Quanto maior o risco, maior a alternância entre retornos positivos e negativos. O mesmo vale para a frequência com que se olha os retornos.
O Ibovespa, por exemplo, subiu expressivos 60% nos últimos 2 anos (495 dias / 24 meses). Nesse período os dias positivos foram pouco mais da metade (56%) dos dias, e o retorno médio foi o mesmo que dos dias de queda (~0,94%). Já os retornos mensais positivos são 2,5 vezes mais frequentes que os negativos (71% vs 29%), com oscilações também parecidas. Como se vê, quem acompanhou a bolsa diariamente viu menos dias positivos para cada dia negativo do que os que acompanharam mensalmente. A estatística prevê este resultado. Quanto maior a frequência que se olha a variação da bolsa, mais próximo de 50% é a chance do resultado ser positivo (ou negativo).
| Retornos Ibov: | Diários | Mensais |
| Amostra | 495 | 24 |
| No de Altas | 278 | 17 |
| % Altas | 56% | 71% |
| Retorno Médio Positivo | +0,93% | +4,61% |
| No de Quedas | 217 | 7 |
| % Quedas | 44% | 29% |
| Retorno Médio Negativo | -0,95% | -3,91% |
Como o Versa tem volatilidade de ação, este resultado também vale para o fundo. Replicamos a análise a partir de 3 de novembro de 2014, dia que o fundo virou o Versa. De lá para cá o retorno acumulado é 836%. Ainda assim os retornos foram positivos em apenas 53% dos dias, com magnitude parecida com os retornos negativos.
| Retornos Versa: | Diários | Mensais |
| Amostra | 872 | 41 |
| No de Altas | 466 | 28 |
| % Altas | 53% | 68% |
| Retorno Médio Positivo | +2,32% | +16,06% |
| No de Quedas | 406 | 13 |
| % Quedas | 47% | 32% |
| Retorno Médio Negativo | -2,01% | -12,65% |
(estatísticas disponíveis na Lâmina)
Olhar a cota diariamente?
Ao juntar o resultado estatístico com a Teoria do Prospecto encontra-se a razão para não olhar a cota do Versa todos os dias. A estatística diz que os retornos diários positivos do Versa acontecem com quase a mesma frequência que os negativos, e têm magnitude parecida. A Teoria do Prospecto diz que as perdas financeiras trazem um desprazer maior do que a alegria dos ganhos equivalentes. Assim, acompanhar a cota do fundo diariamente é oscilar entre perdas e ganhos que geram emoções ruins e boas que não as compensam. Por outro lado, quem acompanhou a cota do Versa mensalmente teve mais que o dobro de notícias positivas em relação às negativas. Olhar com baixa frequência o resultado de investimentos arriscados diminui a probabilidade de se deparar com resultados negativos, desde que os retornos médios sejam positivos no longo prazo. Mesmo com a forte alta dos últimos anos, olhar a cota do Versa diariamente pode ter causado mal-humor.
