Há pouco mais de dois meses, escrevemos aqui que a aquisição da fatia da Previ pela Iberdrola marcava um ponto de inflexão na história da Neoenergia. Naquela ocasião, alertamos que a consolidação do controle em 83,8% do capital abria o caminho óbvio para o fechamento de capital. Na segunda, dia 24, o óbvio se confirmou: a Iberdrola protocolou na CVM o pedido de Oferta Pública de Aquisição (OPA) para retirar a Neoenergia do Novo Mercado e cancelar seu registro de companhia aberta.
A oferta foi lançada a R$32,50 por ação — exatamente o mesmo preço pago à Previ em setembro —, corrigido pela taxa Selic a partir de 31 de outubro de 2025 até a liquidação. O ajuste é a partir de 31 de Outubro pois é a data em que a compra das ações da Previ foi fechada, portanto o preço ofertado aos minoritários é o mesmo pago à Previ.
Na nossa visão, e possivelmente na visão da Iberdrola, o preço de R$32,50 não reflete o potencial da Neoenergia especialmente agora que a companhia encerrou seu ciclo intensivo de Capex em transmissão e começa a desalavancar, transformando-se em uma potente geradora de caixa livre.
Como destacamos em cartas anteriores, com os juros reais longos no Brasil cedendo, o valor dos fluxos de caixa futuros da distribuição e transmissão da Neoenergia supera, em nossas contas, os R$32,50 ofertados. O controlador está comprando o ativo justamente no momento em que ele deixa de consumir caixa para começar a devolver capital. É o timing perfeito para quem compra, mas nem tanto para quem vende.
Infelizmente, a legislação atual dispensa a Iberdrola de apresentar um laudo de avaliação, mas de qualquer forma acreditamos que a Previ deve ter se valido de vários laudos de avaliação e opiniões para fechar a transação a R$32,50.
O valor real da Neoenergia está em ser um veículo de investimento com ótimo track-record operacional, em processo de desalavancagem e grande potencial de distribuição de caixa num curto período de tempo. Para a Iberdrola, o valor é ainda maior pois permite mais liberdade na gestão financeira e operacional e permitirá à Iberdrola simplificar a estrutura corporativa. Além de que os múltiplos em que a ação da Iberdrola negocia no exterior são bem superiores ao da Neoenergia.
A legislação (Lei das S.A., Art. 4º-A) oferece uma ferramenta para situações assim: acionistas que representem 10% das ações em circulação podem requerer a convocação de uma assembleia especial para deliberar sobre a realização de uma nova avaliação. Porém, dado o prazo curto de 15 dias para a mobilização dos minoritários e o preço ofertado que é, relativamente, justo, estamos saindo do nosso investimento em Neoenergia para focar em empresas de distribuição que irão continuar listadas e assim manter seu potencial de valorização no caso de uma queda dos juros futuros no Brasil.
Com o fim da nossa posição em Neoenergia, que representava 47% do fundo Versa Genesis, nossa principal posição nos setor agora passa a ser CPFL até a State Grid resolver fechar o capital*.
*Não existe nenhuma oferta da State Grid, que é a empresa chinesa que controla a CPFL, para fechar o capital de CPFL.
