Em nosso último artigo, comentamos sobre a performance dos ativos de infraestrutura e das NTN-Bs. O principal ponto é que, historicamente, o desempenho das empresas de infraestrutura é correlacionado à performance da NTN-B em prazos mais longos. No entanto, em 2025 isso não ocorreu: a NTN-B ficou praticamente estagnada em termos de yield, enquanto os ativos de infraestrutura subiram mais de 50%.
Devido a esse fechamento de spread, começamos a estudar no Versa Genesis outras opções de alocação, entre elas empresas de infraestrutura no exterior. No último trimestre de 2025, investimos na Southern Company (SO), uma empresa integrada de energia elétrica com operações no Mississippi, Alabama e Geórgia.
Diferente do modelo brasileiro, as empresas de distribuição nos EUA muitas vezes são integradas, possuindo quase a totalidade dos ativos de geração necessários para prover energia à região onde atuam. Os aumentos tarifários são definidos em discussões com a PSC (Public Service Commission) de cada estado. O regulador define, junto à companhia e com base nas necessidades de investimento, a tarifa que deve ser cobrada do consumidor final. Normalmente, essa discussão ocorre através de um Rate Case, um processo formal levado pela empresa à PSC, que decide sobre o aumento baseado principalmente em uma banda de retorno mínimo e máximo permitido para os ativos da companhia.
A Geórgia tem sido um estado com enorme demanda por instalação de data centers, o que fez a Southern Company aumentar de forma significativa seu plano de investimentos até 2030. Para aprovar essa expansão, a empresa garantiu ao regulador estabilidade tarifária para os consumidores residenciais já conectados à rede. Dessa forma, os data centers terão que arcar com os custos adicionais que trarão ao gerenciamento do sistema e à construção da infraestrutura de geração necessária.
Para dar dimensão a esse movimento, as projeções de crescimento de demanda da companhia no estado da Geórgia saltaram de módicos 400 MW em 2022 para cerca de 10.000 MW nas revisões mais recentes, com 80% dessa nova capacidade destinada exclusivamente aos data centers. Para suportar esse choque de demanda, a Southern Company elevou seu plano de investimentos (CapEx) para a casa dos US$81 bilhões nos próximos cinco anos.
A Southern Company negocia a múltiplos mais altos que as empresas brasileiras de energia e possui uma alavancagem superior (acima de 5x Dívida Líquida / EBITDA). Porém, como a taxa de juros americana é muito menor que a brasileira — tanto em termos reais quanto nominais —, a SO é a empresa com o maior spread frente à taxa de juros real em nossa carteira.
Por fim, o ativo nos dá exposição direta à expansão do consumo de energia elétrica nos EUA impulsionada pelos data centers. Em nossa visão, faz muito mais sentido investir diretamente nos EUA para capturar a tese de aumento de consumo de energia gerado pela Inteligência Artificial do que focar em geradoras no Brasil. Investir em empresas de geração locais com esse intuito seria análogo a investir no setor de tech no Brasil.
Recentemente, os cotistas aprovaram a mudança de regulamento do fundo Versa Genesis. Uma das principais alterações foi a flexibilização do limite para alocação em empresas internacionais. Com isso, poderemos buscar mais oportunidades no setor de infraestrutura no exterior sempre que a relação risco-retorno se mostrar vantajosa. Nossa intenção é manter o fundo com alta exposição à infraestrutura no Brasil pois, como esclarecemos no artigo anterior, o retorno em termos reais ainda é muito atrativo; o que está espremido é apenas o spread para a taxa de juros real brasileira.
Outras mudanças no regulamento incluem a possibilidade de investir em FIPs (Fundos de Investimento em Participações) com uma liquidez mínima exigida, o que abrirá novas vias de retorno para o fundo.
